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sábado, 1 de junho de 2013

Ainda Marcelo, Marmelo, Martelo, de Ruth Rocha


Gente vou postar pra vocês o lívro na íntegra, para que dessa forma, todos possam ter acesso ao livro, mas eu sempre recomendo que tentem adquirí-lo, um livro editado, com suas lindas ilustrações, e seu cheirinho de "livro", tem seu valor, e este é inestimável!


Copyright © 1976, Ruth Rocha

Capa e ilustrações: Adalberto Cornavaca


Marcelo,

marmelo, martelo



Marcelo vivia fazendo perguntas a todo mundo:

— Papai, por que é que a chuva cai?

— Mamãe, por que é que o mar não derrama?

— Vovó, por que é que o cachorro tem quatro pernas? 

As pessoas grandes às vezes respondiam.

Às vezes, não sabiam como responder.

— Ah, Marcelo, sei lá...

Uma vez, Marcelo cismou com o nome das coisas:

— Mamãe, por que é que eu me chamo Marcelo?

— Ora, Marcelo foi o nome que eu e seu pai escolhemos.

— E por que é que não escolheram martelo?

— Ah, meu filho, martelo não é nome de gente! É nome de

ferramenta...

— Por que é que não escolheram marmelo?

— Porque marmelo é nome de fruta, menino!

— E a fruta não podia chamar Marcelo, e eu chamar marmelo?

No dia seguinte, lá vinha ele outra vez:

— Papai, por que é que mesa chama mesa?

— Ah, Marcelo, vem do latim.

— Puxa, papai, do latim? E latim é língua de cachorro?

— Não, Marcelo, latim é uma língua muito antiga.

— E por que é que esse tal de latim não botou na mesa nome de

cadeira, na cadeira nome de  parede, e na parede nome de

bacalhau?

— Ai, meu Deus, este menino me deixa louco!

Daí a alguns dias, Marcelo estava jogando futebol com o pai: 

— Sabe, papai, eu acho que o tal de latim botou nome errado nas

coisas. Por exemplo: por que é que bola chama bola?

— Não sei, Marcelo, acho que  bola lembra uma coisa redonda,

não lembra?

— Lembra, sim, mas... e bolo?

— Bolo também é redondo, não é?

— Ah, essa não! Mamãe vive fazendo bolo quadrado... 

O pai de Marcelo ficou atrapalhado.

E Marcelo continuou pensando:

"Pois é, está tudo errado! Bola é bola, porque é redonda. Mas bolo

nem sempre é redondo. E por que será que a bola não é a mulher

do bolo? E bule? E belo? E bala? Eu acho que as coisas deviam

ter nome mais apropriado. Cadeira, por exemplo. Devia chamar

sentador, não cadeira, que não  quer dizer nada. E travesseiro?

Devia chamar cabeceiro, lógico! Também, agora, eu só vou falar

assim".

Logo de manhã, Marcelo começou a falar sua nova língua:

— Mamãe, quer me passar o mexedor?

— Mexedor? Que é isso?

— Mexedorzinho, de mexer café.

— Ah... colherinha, você quer dizer.

— Papai, me dá o suco de vaca?

— Que é isso, menino!

— Suco de vaca, ora! Que está no suco-da-vaqueira.

— Isso é leite, Marcelo. Quem é que entende este menino?

O pai de Marcelo resolveu conversar com ele:

— Marcelo, todas as coisas têm um nome. E todo mundo tem que

chamar pelo mesmo nome porque, senão, ninguém se entende...

— Não acho, papai. Por que é que eu não posso inventar o nome

das coisas?

— Deixe de dizer bobagens, menino! Que coisa mais feia!

— Está vendo como você entendeu, papai? Como é que você sabe

que eu disse um nome feio?

O pai de Marcelo suspirou:

— Vá brincar, filho, tenho muito que fazer...

Mas Marcelo continuava não entendendo a história dos nomes. E

resolveu continuar a falar, à sua moda. Chegava em casa e dizia:

— Bom solário pra todos...

O pai e a mãe de Marcelo se  olhavam e não diziam nada. E

Marcelo continuava inventando:

— Sabem o que eu vi na rua? Um puxadeiro puxando uma

carregadeira. Depois, o puxadeiro fugiu e o possuidor ficou

danado.

A mãe de Marcelo já estava ficando preocupada. Conversou com

o pai:

— Sabe, João, eu estou muito preocupada com o Marcelo, com

essa mania de inventar nomes para as coisas... Você já pensou,

quando começarem as aulas? Esse menino vai dar trabalho...

— Que nada, Laura! Isso é uma fase que passa. Coisa de criança...

Mas estava custando a passar...  Quando vinham visitas, era um

caso sério. Marcelo só cumprimentava dizendo: 

— Bom solário, bom lunário... — que era como ele chamava o

dia e a noite. 

E os pais de Marcelo morriam de vergonha das visitas.

Até que um dia... 

O cachorro do Marcelo, o Godofredo, tinha uma linda casinha de

madeira que Seu João tinha feito para ele. E Marcelo só chamava

a casinha de moradeira, e o cachorro de Latildo.

E aconteceu que a casa do Godofredo pegou fogo. Alguém jogou

uma ponta de cigarro pela grade, e foi aquele desastre!

Marcelo entrou em casa correndo:

— Papai, papai, embrasou a moradeira do Latildo!

— O quê, menino? Não estou entendendo nada!

— A moradeira, papai, embrasou...

— Eu não sei o que é isso, Marcelo. Fala direito!

— Embrasou tudo, papai, está uma branqueira danada!

Seu João percebia a aflição do filho, mas não entendia nada...

Quando Seu João chegou a entender do que Marcelo estava

falando, já era tarde.

A casinha estava toda queimada. Era um montão de brasas.

O Godofredo gania baixinho...

E Marcelo, desapontadíssimo, disse para o pai:

— Gente grande não entende nada de nada, mesmo!

Então a mãe do Marcelo olhou pro pai do Marcelo. 

E o pai do Marcelo olhou pra mãe do Marcelo. 

E o pai do Marcelo falou:

— Não fique triste, meu filho. A gente faz uma moradeira nova

pro Latildo.

E a mãe do Marcelo disse:

— É sim! Toda branquinha, com a  entradeira na frente e um

cobridor bem vermelhinho...

E agora, naquela família, todo mundo se entende muito bem. 

O pai e a mãe do Marcelo não aprenderam a falar como ele, mas

fazem força pra entender o que ele fala. 

E nem estão se incomodando com o que as visitas pensam...

Você gostou do fim da história? 

Se você fosse o autor, 

como é que você gostaria 

que a história acabasse? 

Por que é que você não escreve 

a história de um menino, 

ou de uma menina, 

que também inventou 

um jeito diferente de falar? 

Depois, mostre sua história 

à sua professora.

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